Londres
- Rebeca Kim

- 30 de abr. de 2022
- 10 min de leitura

Essa é uma viagem que fiz em 2017, e mesmo preferindo mostrar aqui viagens mais recentes, pois eu acredito que a acessibilidade nos locais possa sempre melhorar com o passar dos anos, fiquei empolgada para falar sobre Londres!
É a cidade mais acessível que eu já fui e foi também uma viagem em que passei por vários imprevistos, então apesar dos perrengues foi muito legal ver que a cidade possui muitos recursos para lidar com praticamente qualquer coisa.
Além de plana, com calçadas lisas, regulares e com rampas em todas as ruas, a cidade conserva toda arquitetura antiga clássica, mas sem abrir mão da acessibilidade por causa disso. Nesse post vou contar tudo que vi sobre acessibilidade nos transportes, hospedagem e atrações de Londres.
Transporte
Pessoas com deficiência pagam passagem normalmente, mas para os turistas que recarregarem o cartão de transporte e não usarem o valor todo, podem pedir o dinheiro de volta ao final da viagem. O transporte público funciona tão bem que é até sem propósito a pessoa com deficiência não pagar passagem.
Metrô
Assim como em NY, nem todas as estações são acessíveis, mas é possível contar com estações acessíveis em basicamente todos os pontos mais importantes da cidade. Nessa página você pode conferir os mapas em pdf específicos sobre acessibilidade e todas as outras informações necessárias. Fora isso, a educação britânica faz toda diferença: Peguei metrô em um horário lotado e todos os passageiros abriram espaço para que eu entrasse.
Ainda assim, houve uma vez em que o elevador não estava funcionando, mas prontamente apareceram outras pessoas para acionar funcionários do metrô e eles me conduziram até uma área interna onde tinha outro elevador com acesso à estação.
Como nem tudo são flores, eu acabei me confundindo e desci numa estação errada, pensando que tinha acessibilidade e na verdade não tinha. Até aí tudo bem, se não fosse essa mesma estação que estivesse recebendo denúncias de atentado terrorista em plena Black Friday bem na hora em que eu estava procurando o elevador para sair, ainda sem me dar conta de que eu tinha verificado errado a estação acessível no mapa. Em questão de minutos a estação foi evacuada e, por fim, apareceram os últimos funcionários do local para me carregar pelas escadas, porque já haviam suspendido os metrôs que passavam por ali devido ao possível atentado e não era mais possível eu entrar novamente em um vagão para sair em alguma outra estação acessível.
Felizmente o atentado se tratava de um alarme falso, mas só descobrimos isso depois de viver todo o drama como se fosse verdadeiro. O caso virou até notícia no mundo todo e a assistência que me deram na saída do metrô foi excelente considerando o gerenciamento de crise, mas foi uma péssima maneira de descobrir que a Oxford Circus, uma estação tão relevante, não é acessível.
Ônibus
É impossível não reparar naqueles ônibus vermelhos enormes de dois andares. Além de grandes e chamativos, eles são muitos e circulam por toda a cidade o tempo inteiro. Por causa disso, eu tive oportunidades o suficiente de ver que a porta para entrar no ônibus é exatamente no nível da calçada, não tem um degrau sequer, não precisa de elevador, rampa, nada. Ainda assim, dei preferência ao metrô pela facilidade de entender para onde vai, onde descer... Eis que o pneu da minha cadeira furou. Isso mesmo, bem no meio da rua, simplesmente furou do nada. Não é como se nunca tivesse acontecido antes na vida, inclusive eu sempre tenho em casa uma câmara de ar extra e costumo levar nas minhas viagens embora nunca precise, mas é claro que dessa vez eu esqueci de levar. Por sorte,

eu percebi o pneu furado bem exatamente em um ponto de ônibus (sinalizado por uma placa na rua) e, enquanto pensava em maneiras de resolver aquilo, surgiu no meu campo de visão um ônibus em que o letreiro indicando a linha dele dizia "King's Cross". Essa é uma estação de trem e metrô muito conhecida na cidade, além disso, era um ponto de referência por ser bem próximo ao hotel que eu estava e de lá eu sabia que pelo menos no hotel eu teria um suporte para dar um jeito no pneu da cadeira. Era só eu entrar no ônibus e, nem que eu ficasse horas dentro dele, em algum momento pararia na King's Cross e saberia para onde ir.
Foi assim que eu descobri que pegar ônibus lá é bem fácil e inclusive é mais acessível do que o metrô. Quando sinalizei que entraria no ônibus foi acionado uma plataforma que não deixou nem um vão entre a calçada e o ônibus, e para isso o motorista nem sai do seu posto em nenhum momento. Passei a pegar ônibus até mesmo a noite e não tive problema nenhum.
Dentro do ônibus, além do espaço acessível com o botão para solicitar a parada, há um letreiro interno indicando qual é a próxima parada e também é emitido o aviso sonoro com essa informação. Ou seja, basta você utilizar os recursos na internet para saber qual ônibus pegar e onde saltar que o resto não tem erro, todos os ônibus são acessíveis e é muito fácil de se localizar seguindo as próximas paradas na ordem. Para facilitar mais ainda, muitas paradas têm o mesmo nome da atração turística.
Táxi
Durante a saga do pneu furado, assim que desci do ônibus resolvi perguntar a alguns guardas se ali perto da estação havia alguma loja de bicicleta e por acaso tinha mesmo! Era uma loja pequena e não tinham nada que pudesse me ajudar, mas fazia parte de uma rede de lojas sobre bicicleta, então eles fizeram contato e me deram o endereço de outra loja que tinham uma câmara de ar nova do tamanho da minha roda.

O jeito mais rápido para resolver o problema logo foi ir até lá de táxi, e qual não foi minha surpresa ao descobrir que era possível entrar com a cadeira inteira dentro do táxi! Todos os táxis lá são do mesmo modelo de carro, se chama "Austin TX4". É parecido com uma limusine só que menor, com abertura invertida da porta, seu interior é espaçoso e o teto alto. O design por fora segue aquela mesma estética antiga que é um charme, mas o carro é equipado com a mesma rampa que o ônibus tem para facilitar o embarque direto da calçada, embora seja também praticamente no mesmo nível. Esse foi um táxi que pedimos na rua, sem nada de especial ou sem pagar a mais por isso. Todos os táxis rodando normalmente pela cidade são iguais e em todos é muito fácil transportar uma cadeira de rodas, sem precisar que o cadeirante sequer saia da cadeira ou que a cadeira desmonte. Ao pesquisar o modelo do carro eu vi que existe o táxi para cadeirante em Londres desde no mínimo a década de 90, e desde então surgiram novas versões para que todos os carros sejam equipados da mesma forma, sem que fosse necessário solicitar um táxi especial só para cadeirante. É claro que com um sistema de transporte público eficiente e acessível como eu falei ali em cima, não tem muita necessidade de ficar gastando em libra pra pegar táxi, mas é maravilhoso saber que se precisar é só parar um táxi na rua que você não vai ter trabalho algum ao colocar sua cadeira dentro dele. Com isso tudo, nem pensei em pegar Uber.
Hospedagem
Diante da dificuldade em encontrar airbnb acessível e considerando os altos preços dos hotéis na região de Westminster, encontrei um hotel próximo a estação King's Cross e foi uma ótima escolha pois era bem fácil de se localizar pela cidade considerando a estação.
Point A Hotel London Kings Cross St Pancras
Apesar de indicar acessibilidade nos sites de busca, o elevador desse hotel é bem pequeno. Outros detalhes também é que só possui quartos para duas pessoas e a opção de acomodação mais barata oferece quartos no subsolo, sem janela. É um hotel pequeno, simples, mas muito acolhedor e agradável. Não oferece café da manhã incluído na reserva, mas tem um serviço gratuito de bebidas quentes variadas a qualquer hora. Era uma delícia tomar uma bebida quentinha ao retornar do frio de novembro nas ruas.
Atrações
Muitas das atrações são gratuitas para a pessoa com deficiência e um acompanhante, ou então possui algum beneficio ou algum tipo de desconto. Vou explicar melhor sobre cada uma.
Oxford Street
Apesar da falta de acessibilidade no metrô, como expliquei ali no início, a rua que concentra grandes lojas conhecidas é de fácil acesso e circulação, é possível chegar por outros meios ou até mesmo a pé vindo de outra estação acessível. A rua ainda fica decorada na época do Natal.
Para quem quer saber o desfecho do pneu furado, o endereço indicado na primeira loja era de uma outra unidade em que o subsolo contava também com uma oficina para bicicletas. Lá encontrei a câmara de ar que precisava e na própria loja fizeram a mão de obra pra mim, fui muito bem atendida. Essa loja ficava numa rua com várias outras lojas para bicicleta, e era próximo da Oxford Street, então não perdemos o dia por causa disso e continuamos o passeio por lá.

Hyde Park
Uma das maiores áreas verdes da cidade, o parque é todo plano e pavimentado, uma delícia de passear. Durante a época de Natal a noite montam um evento com parque de diversões, comidas, artesanatos, música, com entrada gratuita para todos.
Abadia de Westminster
No site eles trazem a informação de que a igreja não é completamente acessível, por isso a pessoa com deficiência e o acompanhante não pagam a entrada. A pessoa com deficiência ainda pode usar um dispositivo com descrição em áudio como um guia do passeio. Sinceramente, não vi nenhuma área lá dentro que não tivesse acesso, ou seja, é só vantagem e a igreja por dentro é lindíssima.
Palácio de Buckingham
O palácio tem uma grande praça lisa e plana na frente, facilitando a circulação. Mesmo durante a troca de guarda, momento em que as pessoas se concentram para assistir, é muito organizado e permitido que cadeirantes fiquem na frente da grade de segurança para não comprometer o campo de visão. É uma experiência que vale muito a pena e é livre, gratuita, em praça pública.
London Eye

A imensa roda gigante possui grandes cabines em forma de cápsula, um pouco similar ao bondinho do Pão de Açúcar no Rio de Janeiro. A cabine é toda de vidro, as pessoas vão em pé e podem circular por dentro dela. A pessoa com deficiência não paga e pode levar até dois acompanhantes também gratuitamente. A entrada acessível é diferente, portanto não precisa pegar fila, mas para embarcar na cabine não há qualquer dificuldade. A cabine é reservada apenas para a pessoa com deficiência e seus acompanhantes, o que pra mim foi bom, mas não sei como seria se eu estivesse acompanhada de outras pessoas. A vantagem é que foi possível circular pela cabine e observar de todos os ângulos, mas é um pouco de exagero porque o espaço é bem grande, creio que se tivesse outras pessoas junto também não seria difícil.
Tower Bridge
Para visitar por dentro da ponte a pessoa com deficiência tem desconto na entrada, mas eu li relatos de que nem sempre o elevador funciona e em algumas partes lá em cima não dá altura para ver pela janela, então eu decidi não arriscar. O passeio pela ponte em si já é ótimo por si só, bem tranquilo de caminhar e tirar lindas fotos. A travessia para pedestres é asfaltada e não é tão extensa, o outro lado também é bem legal de conhecer.
Big Ben
Infelizmente na época que eu fui estava totalmente fechado para obras, não consegui ver nada.
Museu Britânico
Gratuito para todas as pessoas e bastante acessível, o museu também oferece acesso gratuito a pessoa com deficiência e um acompanhante para as exposições que são pagas separadamente.
Biblioteca Pública
Também gratuito e acessível, a biblioteca é imensa, pode ser um passeio super interessante. É também onde fica uma das lojas oficiais de Harry Potter.

Greenwich
É uma região bem interessante e muito fácil de chegar. Esse post aqui explica todos os detalhes, eu fui de barco, peguei o teleférico e é tudo totalmente acessível: o barco é como uma balsa, que para no mesmo nível do chão e você transita com a cadeira normalmente. O teleférico tem elevador para chegar lá em cima e também acomoda a cadeira inteira dentro, eles só param um pouco para fazer o embarque com mais segurança, mas é tão devagar que nem precisava. A parte menos acessível pode ser o parque, que tem muitos gramados e ladeiras, mas eu nem cheguei a ir e acho que não prejudica em nada ao visitar esse lado da cidade. Também não fui na passagem subterrânea então não sei sobre o acesso.
Chinatown
Diferentemente da Chinatown de NY ou do bairro da Liberdade em São Paulo, em Londres nas ruas de Chinatown não há trânsito de veículos, o que facilita muito a circulação principalmente pela quantidade de pedestres que transitam por lá, fazendo com que as calçadas pareçam estreitas, apesar de mesmo assim serem lisas, de chão regular e com rampas.
Camden Town
Foi o bairro onde encontrei mais dificuldade, pois alguns terrenos são irregulares e de paralelepípedo. Ainda assim, nada tão difícil e vale a pena para conhecer o charmoso bairro onde morava Amy Winehouse, que conta até com uma estátua da cantora.
King's Cross
Vale a pena incluir a estação no seu passeio mesmo que só para conhecer. É enorme, linda e muito importante para a cidade. Para quem é fã, lá fica uma das lojas oficiais de Harry Potter, com o carrinho de malas na parede para tirar fotos no local original da plataforma 9-3/4.
Warner Bros Harry Potter Tour
Um passeio muito legal tanto para quem é fã ou simplesmente admirador de uma corajosa produção audiovisual que acabou dando muito certo. Este é um tour pelo primeiro estúdio onde gravaram Harry Potter, antes de se tornar um grande sucesso. Nesse post você confere como chegar lá, que pode ser de transporte público, transfer privativo ou carro particular. Eu não encontrei nenhuma dificuldade em utilizar o transporte público e o ônibus específico para o estúdio é exatamente igual ao ônibus que circula pela cidade, só está decorado por fora, então é tão acessível quanto.

Para comprar a passagem desse ônibus é necessário já ter comprado o ingresso para o tour, que precisa ser reservado antecipadamente pela internet, e tanto a pessoa com deficiência quanto os acompanhantes pagam normalmente. Para circular dentro do estúdio alguns espaços são apertados ou em um campo de visão muito alto, mas é compreensível levando em conta que são os espaços usados originalmente nas gravações, como a parte interna do trem, por exemplo, que a entrada é por escadas. Considero que o tour é tão acessível quanto dá para ser. Caso o seu maior sonho seja entrar no trem do Harry Potter, recomendo o parque da Universal Studios em Orlando, que possui a réplica do trem com cabine acessível.
Se acessibilidade for a sua maior preocupação, pode ficar tranquilo que Londres é um excelente destino nesse quesito. Pode ir sem medo e curtir tudo que tem direito!

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